Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
Com tantas divergências internas e externas, fica cada dia mais difícil mantermos a paz.
A paz não se consegue sem esforço, sem um pouco de silêncio e reflexão.
A paz não cai do céu! É uma conquista diária, diria até, que é quase um estado de ousadia, nos dias de hoje.
Duvidemos da origem de todos os conflitos, mas jamais do estado de paz!
Vivamos a paz, porque ela provê a alegria de viver!
Paz!
O que nos leva a querer passar a vida inteira com alguém é um mistério.
Você pode fazer a lista infindável do que mais gosta de sua companhia e
do que menos gosta, mas nenhuma vai incluir a chave do relacionamento.
É um gesto, uma atitude, uma frase, algo que o toca em particular, que
fecha com aquilo que procurava inocentemente desde pequeno.
Meu
amigo Felipe se apaixonou pelo jeito que a Fernanda colava o brinco
quebrado com bonder, mas ele não desconfia até hoje que foi isso.
Casou com ela depois de vê-la consertando a minúscula joia debaixo do abajur.
Ele briga, discute, discorda da esposa, porém jamais vai se separar.
Essa cena despertou uma necessidade incurável da presença dela.
É o motivo do apego irascível. Existiu um quebranto, uma hipnose
afetiva, talvez ele tenha se projetado no brinco (ela tentará me salvar
quando me quebrar), talvez tenha se enamorado das suas concentradas
mordidas de lábios.
O que posso garantir é que Felipe ficou
alucinado de ternura: naquele momento decidiu que ela era a mulher de
sua vida. Em seu sangue, gravou o rosto da jovem empenhada em salvar o
brinco. Com o piscar das pálpebras, tirou a fotografia fundadora do seu
amor, um sudário que preservará seu sentimento toda manhã.
Ele
mal sabe que o real motivo de sua emoção está no plastimodelismo da
infância. É bem capaz de nunca descobrir. Quando enfrentou catapora aos
10 anos, Felipe suportava sua solidão montando aviões. Grudava as
pequenas peças de plástico com cuidado para não borrar a cola e estragar
o encaixe. O brinco tornou-se mais um de seus aeroplanos.
Já
vi gente que se uniu pelo modo de dobrar o guardanapo, pelo modo de
morder uma fruta, pelo modo de gritar de susto, pelo modo de amarrar os
cadarços.
Uma observação mínima acorda o inconsciente para sempre.
Quanto maior o amor, mais insignificante a origem.
Aceitaremos o cotidiano a dois sem determinar o porquê. Nossa decisão
está baseada apenas na intuição. Um movimento nos ofereceu segurança
para seguir em frente e aceitar o relacionamento.
Minha namorada tampouco supõe o começo de sua paixão por mim.
Inacreditavelmente, ela me ama pela forma em que tiro a camiseta. Com
ambas as mãos, pelas costas, agarrando o tecido pela gola.
Ela acha o gesto protetor, viril, maiúsculo.
As mulheres se despem pela frente, de baixo para cima, levantando a blusa devagar e ritmado.
Como a maior parte dos homens, sou abrupto. Puxo a camiseta com força, livro-me dela, como um animal arrancando a pele.
Chega a ser cômico. E eu pensava que havia conquistado sua afeição com poemas. *Fabrício Carpínejar Publicado no jornal Zero Hora Coluna semanal, p. 2, 15/1/2013 Porto Alegre (RS), Edição N° 17313
Eu nasci para estar calado. Minha única
vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para
não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no
plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.
Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não
estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os
delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de
silêncios.